Se nos últimos anos o mercado concentrou suas atenções nas capacidades da IA generativa para criação de textos, imagens e códigos, o StartSe AI Festival 2026 deixou clara uma mudança de direção: a ascensão da IA agêntica, capaz de executar tarefas, tomar decisões e interagir autonomamente com sistemas e processos de negócio.
Durante o evento, algumas das principais empresas de tecnologia do mundo apresentaram soluções e casos práticos que reforçam essa transformação. Entre os destaques estiveram apresentações da Anthropic, Google, Replit, Microsoft, iFood e Localiza, demonstrando como os agentes inteligentes estão deixando de ser uma tendência para se tornarem parte da operação das organizações.
Segundo Ronie Queiroz, Head IA da Join4, o principal aprendizado do evento foi justamente a convergência das grandes empresas para um mesmo caminho.
“O principal destaque foi perceber que existe um consenso entre os grandes players de tecnologia: estamos migrando da era da IA generativa para a era da IA agêntica. Não estamos mais falando apenas de modelos que respondem perguntas ou geram conteúdo. Estamos falando de agentes que entendem o contexto da empresa, como regras, cultura e processos, executam atividades e participam efetivamente da operação diária.”
Essa percepção ficou evidente em diferentes palestras ao longo do evento. A Anthropic apresentou avanços relacionados ao uso corporativo do Claude e às estratégias de colaboração entre agentes inteligentes. A Google trouxe novidades já anunciadas no mercado norte-americano e que começam a chegar ao Brasil, especialmente nas áreas de armazenamento de dados, infraestrutura e segurança para agentes de IA. Já a Replit demonstrou sua evolução no universo do chamado Vibe Coding, ampliando a capacidade de desenvolvimento assistido por inteligência artificial com foco crescente em governança e segurança.
Mas foi a apresentação da Localiza que chamou atenção pelo grau de maturidade da adoção da tecnologia. A empresa revelou uma estrutura composta por mais de quatro mil agentes de IA atuando interna e externamente para apoiar colaboradores e clientes em diferentes processos corporativos.
Para Ronie, esse tipo de iniciativa demonstra que a discussão sobre inteligência artificial já ultrapassou a fase experimental, agora é hora de colher os frutos, no caso o ROI.
“O que vimos no evento mostra que a IA está saindo do campo das provas de conceito e entrando na operação. Os agentes deixam de ser assistentes e passam a atuar como operadores digitais, apoiando decisões, executando tarefas e aumentando a produtividade das equipes.”
Entre os anúncios que mais repercutiram no evento está o Universal Commerce Protocol (UCP), iniciativa liderada pelo Google que promete redefinir a forma como consumidores interagem com plataformas de comércio eletrônico.
O conceito é simples, mas suas consequências são profundas. Em vez de navegar por categorias, pesquisar produtos, preencher carrinhos e concluir formulários de compra, o consumidor poderá simplesmente informar sua necessidade a um agente inteligente.
Esse agente ficará responsável por localizar fornecedores, verificar disponibilidade de estoque, comparar preços, negociar condições de entrega e concluir a compra automaticamente.
“O trabalho humano termina quando a necessidade é informada. A partir daí, a inteligência artificial faz toda a busca, consulta estoques em tempo real, avalia preços e fecha a compra em poucos segundos”, explica Ronie.
Na prática, isso representa uma mudança estrutural na lógica do comércio digital. A experiência tradicional de navegação, construída ao longo de décadas para influenciar emocionalmente o consumidor, perde relevância diante de agentes que tomam decisões exclusivamente baseadas em dados.
“A IA não se importa se o site é bonito, se existe um banner chamativo ou se o botão de compra está na cor ideal. Ela trabalha com informação objetiva. Preço, estoque, prazo de entrega e qualidade dos dados passam a ser os fatores decisivos”, afirma Ronie.
Essa transformação também afeta diretamente as estratégias digitais das empresas. Por muitos anos, a otimização para mecanismos de busca esteve concentrada em palavras-chave, produção de conteúdo e posicionamento em páginas de resultados. No entanto, a popularização dos agentes inteligentes inaugura uma nova dinâmica.
Se as decisões passam a ser tomadas por inteligências artificiais, a prioridade deixa de ser apenas a comunicação com pessoas e passa a incluir a comunicação eficiente com máquinas.
Segundo Ronie, isso exigirá uma nova geração de arquiteturas digitais.
“As APIs, os manifestos de integração e a qualidade dos dados passam a ser ativos estratégicos. Se a inteligência artificial não consegue interpretar corretamente o seu catálogo, seu estoque ou suas condições comerciais, sua empresa simplesmente deixa de existir para esse novo ecossistema.”
Essa mudança não impacta apenas operações digitais. O varejo físico também deverá enfrentar novos desafios.
Com agentes realizando compras automaticamente e oferecendo conveniência cada vez maior aos consumidores, a tendência é de aumento da pressão competitiva sobre lojas tradicionais que ainda não estejam integradas aos ambientes digitais.
Da AI generativa à AI agêntica
A geração de conteúdo, que impulsionou a popularização da tecnologia nos últimos anos, passa agora a dividir espaço com agentes capazes de compreender objetivos, acessar sistemas, consultar bases de dados, aplicar regras de negócio e executar atividades completas.
Para empresas que desejam permanecer competitivas, a mensagem apresentada no evento é clara: a preparação para esse novo cenário precisa começar agora.
“A era da IA generativa foi responsável por democratizar o acesso à tecnologia. Agora estamos entrando na era da IA agêntica. As organizações que estruturarem seus dados, integrarem seus sistemas e prepararem seus processos estarão prontas para aproveitar esse novo ciclo de inovação.”
Mais do que uma tendência tecnológica, os agentes inteligentes começam a se consolidar como uma nova camada operacional das empresas. E, pelo que foi apresentado no StartSe AI Festival 2026, essa transformação já está em curso.