Por Roberto Mancuzo
A transformação digital nunca esteve tão presente nas agendas corporativas. Inteligência Artificial, automação, análise de dados e cibersegurança ocupam espaço constante nas discussões sobre competitividade e eficiência. Mas, diante de tantas possibilidades tecnológicas, uma pergunta continua provocando líderes e organizações: as empresas estão realmente preparadas para capturar valor dessas iniciativas?
Esse foi um dos principais temas debatidos durante o SSKE 2026, evento promovido pelo IEG, que reuniu executivos para discutir os desafios e oportunidades da transformação empresarial. No painel “Âncora ou Motor? O Papel do CSC, integrado à TI e Cybersecurity, na Era da IA”, conduzi uma conversa ao lado de Sérgio Morseli, gerente de projetos, e Yleine Garufe, Executiva de Inovação, Inteligência Artificial, Ciência de Dados e Cibersegurança na Embraer. 
Mais do que discutir tecnologia, o debate trouxe uma reflexão sobre o papel estratégico que processos, pessoas, dados e governança desempenham na geração de valor dentro das organizações.
Um dos pontos centrais da discussão foi a evolução do papel dos Centros de Serviços Compartilhados. Se antes o CSC era frequentemente associado à centralização de atividades administrativas e busca por eficiência operacional, hoje ele ocupa uma posição muito mais estratégica dentro das organizações.
Segundo Sérgio Morseli, essa transformação acontece porque o CSC possui uma visão privilegiada da operação. Por estar presente no início, no meio ou no fim de diversas jornadas corporativas, ele consegue enxergar processos de ponta a ponta, compreender a cadeia de valor e identificar oportunidades de melhoria que dificilmente seriam percebidas por áreas atuando de forma isolada.
Na visão do gerente, essa capacidade torna o CSC um verdadeiro agente de transformação organizacional. Ao conectar diferentes áreas e promover maior integração entre processos, ele assume um papel cada vez mais relevante na construção de modelos operacionais mais eficientes e preparados para o futuro.
Para Morseli, esse movimento é irreversível. Assim como a Inteligência Artificial se consolida como uma realidade permanente nas empresas, os CSCs tendem a ampliar seu protagonismo, atuando como facilitadores da transformação e da conexão entre áreas de negócio, tecnologia e operação.
Ao longo da conversa, trouxe uma provocação que permeou todo o debate: as empresas estão realmente preparadas para utilizar Inteligência Artificial ou estamos vivendo uma corrida impulsionada pela ansiedade de não ficar para trás?
A reflexão abriu espaço para uma análise importante sobre o atual estágio de maturidade das organizações.
Segundo Yleine Garufe, o entusiasmo em torno da IA é evidente, mas os resultados ainda estão abaixo do potencial prometido. Ela lembra que estudos recentes mostram que a grande maioria das empresas ainda não consegue transformar projetos-piloto em iniciativas escaláveis capazes de gerar retorno efetivo para o negócio.
Na avaliação da executiva da Embraer, isso acontece porque o desafio raramente está na tecnologia em si. O problema normalmente está na ausência de processos estruturados, em uma governança consistente e com estratégia adequada para organização e utilização dos dados.
Para ela, a grande oportunidade não está em adotar tecnologia pela tecnologia, mas em utilizá-la para transformar a rotina das pessoas, melhorar a tomada de decisão e gerar valor real para a operação.
“Se a operação não está bem estruturada, a IA não vai resolver o problema. Ela apenas vai acelerar o dar errado”, ressalta Garufe.
A frase resume uma percepção cada vez mais presente no mercado: Inteligência Artificial não substitui estrutura. Sem processos claros, regras definidas e dados organizados, o potencial da tecnologia fica limitado.
Ao longo da conversa, reforçei que a discussão sobre IA precisa ir além da ferramenta e da inovação tecnológica.
Muitas organizações ainda concentram esforços na busca pela próxima tecnologia sem dedicar a mesma atenção à estrutura que sustenta a operação.
“Da mesma forma que acontece com a automação, se o processo é ruim, ele continuará ruim. A diferença é que agora ele ficará ruim mais rápido.” destaca Garufe.
O primeiro passo continua sendo compreender o processo, identificar gargalos, entender regras de negócio, organizar dados e criar mecanismos de governança capazes de sustentar qualquer iniciativa de transformação.
Isso não significa limitar o uso da Inteligência Artificial. Ylene destacou que a IA possui enorme potencial para apoiar análises preventivas, gestão de riscos, identificação de padrões e geração de insights estratégicos. O desafio está em entender onde ela gera valor e como incorporá-la dentro de uma arquitetura operacional consistente.
Outro tema relevante discutido no painel foi a necessidade de construir bases sólidas antes de ampliar o uso da IA.

Segundo Sérgio Morseli, iniciativas mais maduras normalmente começam em processos que possuem regras claras, volume relevante e um nível adequado de padronização. Esse contexto facilita a aplicação da tecnologia e aumenta as chances de sucesso dos projetos.
Mas o gerente de projetos chamou atenção para um aspecto muitas vezes negligenciado: a transparência com as equipes.
Na sua visão, a adoção de novas tecnologias exige uma comunicação clara sobre os objetivos da transformação. As pessoas precisam compreender que automação e Inteligência Artificial não existem para competir com o trabalho humano, mas para complementar capacidades, eliminar atividades repetitivas e permitir que os profissionais atuem de forma mais estratégica. Essa construção de confiança é fundamental para reduzir resistências e acelerar a adoção das mudanças.
Quando o debate avançou para o futuro da transformação digital, a tecnologia deixou de ser o centro da conversa. O foco passou a ser liderança, adaptação e desenvolvimento humano.
A transformação digital continuará acontecendo de forma permanente, para Morseli. O verdadeiro desafio está na capacidade das organizações de conduzir a transformação das pessoas.
Segundo ele, liderar esse processo exige escuta ativa, empatia e capacidade de construir jornadas de mudança junto às equipes, em vez de simplesmente impor novas formas de trabalho.
Yleine complementou essa visão ao destacar uma característica que considera fundamental no contexto brasileiro: a adaptabilidade. Em sua avaliação a transformação tecnológica já faz parte do cotidiano das pessoas. O que muda agora é a velocidade com que novas ferramentas chegam ao ambiente corporativo.
Por isso, defende que as organizações invistam em letramento digital e em educação sobre Inteligência Artificial. Mais do que ensinar a utilizar ferramentas, é necessário ajudar as pessoas a compreenderem onde a tecnologia gera valor, quais problemas ela resolve e quais limitações ainda possui.
Ao colocar as pessoas no centro da transformação, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passa a atuar como um instrumento de evolução dos processos e da experiência de trabalho.
Ao final do painel, uma mensagem ficou clara: o futuro das organizações não será definido pela quantidade de tecnologias implementadas, mas pela capacidade de estruturar processos, organizar dados, desenvolver pessoas e criar ambientes preparados para evoluir continuamente.
A Inteligência Artificial abre possibilidades inéditas para ganho de produtividade, análise e tomada de decisão. Mas seu potencial só se concretiza quando existe uma operação capaz de sustentá-la.
Essa é justamente a reflexão que acompanhou toda a discussão conduzida por Roberto Mancuzo no SSKE 2026: antes de acelerar, é preciso estruturar.
Porque, na prática, a tecnologia pode transformar uma operação. Mas somente quando existe uma base sólida para direcionar essa transformação.